Para China, Brasil representa fonte de commodities
Professor no Departamento de Administração da FEA/USP, Paulo Roberto Feldmann relata constatações e lições extraídas de sua viagem à China
Foto: Maria Regina Teixeira
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Feldmann: "talvez em quinze ou vinte anos a China ocupará sem dúvida a posição dos Estados Unidos" |
Conhecimento, visão estratégica dos negócios e boas doses de paciência oriental podem ser os segredos para abrir amplamente as portas da gigantesca China para o Brasil. Mesmo que demande tempo, reconhecimento do mercado, longas e constantes conversas entre brasileiros e chineses, os dois países podem lucrar muito.
Essas constatações ficam evidentes no relato do professor Paulo Roberto Feldmann a respeito de sua viagem à China. Segundo ele, a China deve continuar importando aço do Brasil por um certo tempo, produto de que eles ainda carecem. Mas, daqui a uns cinco anos ela inverterá a posição, prevê. "A China quer o Brasil para comprar commodities: soja, minério de ferro, alimentos em geral. E o Brasil deve encará-la como um mercado importante para suas commodities", afirma.
Os empresários brasileiros devem observar que a classe média está crescendo lá e o território chinês tem apenas 10% de área cultivável ou equivalente a um milhão de quilômetros quadrados, insuficientes para alimentar a população de atuais 1,3 bilhão de pessoas, salienta o docente. Comparativamente, o Brasil dispõe de área agrícola seis a sete vezes maior. Para Feldmann "o Brasil pode ser realmente um grande celeiro para a China". Precisa, entretanto, perceber claramente em quais setores a China é concorrente e em quais ela é cliente.
Segundo o professor, o gigantesco país oriental será a próxima grande potência mundial. "Se o PIB chinês continuar crescendo como está e o dos Estados Unidos também, por volta de 2030 eles já terão ultrapassado o PIB norte-americano. Talvez em quinze ou vinte anos a China ocupará sem dúvida a posição dos Estados Unidos", avalia Feldmann, referindo-se a um estudo publicado pelo banco de investimentos Morgan Stanley.
A famosa paciência oriental parece ser um diferencial competitivo dos chineses. Feldmann afirma que ao contrário da lógica imediatista norte-americana, que quer o lucro amanhã, na China as ações são planejadas para cinco, dez anos ou mais. "Os chineses pensam a longo prazo e muito estrategicamente. Estou certo de que na estratégia deles o Brasil é o seu grande fornecedor de alimentos", comenta.
Esta visão de longo prazo talvez tenha origens na história e cultura milenar da nação, que tem mais de 2.500 anos, diz o professor. Exemplo real do foco chinês no futuro é a importância do plano qüinqüenal. "Não há nada mais importante para os chineses do que o plano qüinqüenal, uma religião para eles", avalia Feldmann. Segundo ele, os planos qüinqüenais têm sido cumpridos à risca e a economia de mercado é aplicada em apenas sete das 23 províncias do país e em determinadas áreas.
Reconhecer as diferenças e peculiaridades da lógica chinesa ao fazer negócios já é um bom começo para os empresários brasileiros que pretendem fincar suas bases naquele país. O solo e toda infra-estrutura, incluindo telecomunicações, petróleo, transportes e bancos, é do "riquíssimo" governo chinês, lembra o professor. Entretanto, o que os dirigentes comunistas liberaram para o capital privado - local ou estrangeiro - obedece a importantes condições: "tudo deve ter competição, e muita. Uma montadora de automóveis sozinha não entra no mercado chinês, deve haver no mínimo duas ou três. Toda empresa estrangeira que se instale no país deve ter um sócio chinês, preferencialmente estatal", explica o professor. Esta exigência, no entanto, parecer estar sendo abrandada, mas lembra que empresas como a Embraer estão associadas lá a uma estatal chinesa. O acadêmico não é da opinião de que o crescimento da China terá o efeito de uma bolha ou será passageiro. "O fato de existir um planejamento central é muito forte e os dirigentes chineses sabem onde querem chegar", salienta.
Outra distinção da China em relação aos demais países emergentes, observada pelo professor, é que ela não possui certas "amarras", como acordos com o Fundo Monetário Internacional. O professor afirma que o governo chinês "dá importância à OMC, não ao FMI, e mesmo que desse, a China tem 420 bilhões de dólares sobrando em caixa. Não há como ter crise".
Mitos
Na visão de Feldmann há no Brasil alguns mitos em relação ao gigante asiático que precisam ser destruídos. O primeiro deles é considerar que os chineses investirão fortemente em nosso país. Para ele, dificilmente a China destinará capital ao Brasil, pois os empresários chineses preferem investir no próprio país já que internamente eles obtêm lucros consideráveis e conhecem o mercado doméstico.
Outro mito é achar que a economia de mercado implantada na China significa o enfraquecimento do regime comunista. Ao contrário, "o comunismo está mais forte do que nunca porque tudo que está acontecendo foi planejado pelos comunistas". O professor aponta outra peculiaridade do povo chinês: "Democracia não é, aparentemente, um valor para eles", explica.
Na era da globalização os interesses são igualmente globais. Assim como o mundo volta-se para o mercado chinês, eles também querem ampliar o próprio mercado. "Minha conclusão é de que a China pretende ser o grande fabricante de produtos manufaturados do mundo e que dificilmente vamos vender manufaturados lá", analisa Feldmann. Prova disso é que hoje ela é o quarto maior exportador desses produtos, perdendo apenas para Estados Unidos, Japão e Alemanha. Enquanto a China é hoje a sétima economia do mundo, o Brasil que já ocupou a oitava posição atualmente é a décima quinta. O docente lembra que há 20 anos exportávamos menos do que os chineses e hoje o Brasil continua com a pífia participação de cerca de 1% do comércio global, enquanto a China responde por cerca de 7% deste mercado. Feldmann reconhece como exceção a Embraer, cuja atuação é louvável, diz.
Intercâmbio MBA
O MBA Executivo Internacional da FIA, curso precursor desta modalidade no Brasil, leva sua primeira turma de alunos à China para estudar a economia, cultura e o modelo de negócios daquele país já neste segundo semestre de 2004. "A iniciativa é excelente. Os chineses são comerciantes astutos e agressivos, por isso os brasileiros devem aprender muito a respeito deles", ressalta Feldmann.
Docente no Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, Feldmann esteve entre os mais de 400 integrantes da comitiva brasileira que viajou ao gigantesco país asiático, liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além de representar a Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania (Cives), o professor tratou de reforçar os acordos de intercâmbios acadêmicos para o Programa de MBAs da FIA e para a FEA/USP. Os contatos foram bastante positivos no sentido de promover a troca de professores entre as universidades de Pequim (ou Beijim, tradução correta para o ocidente) e as instituições de ensino brasileiras. "Deixamos bem claro o que se pretende fazer e verificamos que eles têm muito interesse pelo Brasil, pelo continente latino-americano, mas nos conhecem muito pouco", avalia. Para Feldmann, a China quer conhecer o Brasil para vender mais no mercado brasileiro.
Feldmann lembra que o grande mentor do crescimento chinês, Deng Xiaoping (1904-1997), tem uma célebre frase que resume o objetivo traçado e seguido pelos chineses ao longo do tempo: "não importa a cor do gato desde que ele coma o rato", deixando claro que a China está determinada a chegar ao topo, seja como for. O Brasil, firmando sua posição de parceiro e seguindo o rastro da China, só tem a ganhar. Por essas razões, conclui o professor, "devemos nos preocupar com eles."
Maria Regina Teixeira
Informações: (11) 3091-5985 ou feldmann@usp.br |